quinta-feira, 30 de outubro de 2014




ESCOLHIDOS POR MIM

Mãe, eu te escolhi para ser minha mãe aqui na terra.
Pai, eu te escolhi entre todos os homens para ser o meu pai terreno.
Está ficando tão distante no tempo o dia da escolha.
Era dia? Era noite? Não importa.
Importa sim é que tomei a decisão.
Vocês seriam os meus pais.
E vim tão frágil.
Para tocar seus corações?
Não apenas por isso.
Bem mais tarde conheceríamos as razões.
Meus pais diziam que sempre fui delicada, desde a mais tenra idade.
E diferente.
Eu sempre gostei de poesias, versos, de falar de amor, de dor, de alegria.
É bem assim, vivi uma vida de poesia.
Lembro bem que papai comentava com a mama que eu tinha uma personalidade suave.
Nós costumávamos ter conversas muito interessantes e, através destas conversas, fui conhecendo mais de mim.
No tempo que meu pai ainda estava conosco, neste plano, eu não compreendia muitas coisas que somente passei a compreender anos mais tarde.
Uma pena. Mas nada que se possa fazer a respeito. Talvez a minha missão em relação a ele fosse lhe mostrar alguns caminhos que eu acreditava serem os melhores e também ter esta convivência com uma filha terna e frágil.
Apesar de que, embaixo de toda minha aparente fragilidade, se esconde uma fortaleza e eles tiveram oportunidade de usufruir disso.
Em tantos momentos os socorri.
Eu penso realmente que os escolhi e não desejei um instante em meu viver que fossem outros os meus pais.
Minha mãe, apesar de já ter uma idade avançada, é uma mulher forte e corajosa. Uma verdadeira flor no jardim da minha vida.
Um exemplo de fé, coragem e bondade.
Sou muito feliz com a escolha que fiz e envio ao meu pai um beijo que deve atravessar a eternidade para lhe encontrar onde quer que ele esteja.

E quero lhe dizer mais uma vez: sempre os amei intensamente. Vocês sempre foram a referência em minha vida. Os símbolos do amor e de paz.

Mãe, sua casa ainda é, e sempre foi, o meu porto seguro.

sonia delsin 

sexta-feira, 30 de maio de 2014



UM BANDO FELIZ


Era domingo e senti uma vontade grande de sair um pouco da “toca”.
Cansamos de ficar tanto dentro de casa e nos últimos tempos tenho ficado bastante tempo enfurnada na sala de computador.
Muitos compromissos me obrigam a ficar muito tempo em contato direto com a máquina.
Bem, o dia estava bonito. Muito azul, um sol maravilhoso.
Eu disse ao meu marido que desejava ir a um lugar que já havíamos estado uma vez. Uma estrada de terra que corta umas fazendas maravilhosas.
Uma bela vista.
Paramos num determinado trecho do caminho para observar um vale que se descortinava magnificamente à nossa frente.
À sombra de uma gigantesca árvore ficamos observando a paisagem.
Meu marido notou que algo se mexia sobre uma árvore e logo vimos que se tratava de um macaco.
Ele pulava de galho em galho, de árvore em árvore. Mas ouvíamos um barulho grande.
Logo o macaco pulou numa árvore e ficou se alimentando de alguma coisa que não identificávamos daquela distância que estávamos.
Apareceu outro macaco numa árvore próxima e um pouco depois descobri que eram muitos.
Eles faziam uma festa enorme. Davam gritos e caminhavam sobre os galhos finos como se estivessem no solo.
Como me emocionou vê-los soltos na natureza! Livres, como acredito que devam ser os animais.
No zoológico nunca vi algo parecido.
Os gritos felizes deles me tocavam.
Pareciam bailarinos no topo das árvores.
Aquele bando feliz encheu o meu domingo de cor.

sonia delsin


UMA AVENTURA NO RIO APORÉ


Era dezembro e eu passava uns dias no Mato Grosso do Sul.
Andava tão estressada naqueles dias e levaram-me para lá para que eu pudesse descansar, arejar a cabeça.
Realmente foram uns dias singulares. Jamais me esquecerei tudo que vivi naquele povoado.
Numa manhã eu fui sozinha pescar num rio próximo ao local que estávamos hospedados.
Bem, eu estava na casa de amigos em São João do Aporé, o local fica situado bem próximo ao estado de Goiás. Atravessamos o rio (vou guardar para sempre na memória aquela ponte de madeira que atravessei tantas vezes naqueles dias que lá estive) e já estamos em Lagoa Santa/Go.
Peguei apenas duas varinhas, um viveiro para colocar os peixes, as iscas, uma garrafa de água, umas frutas, um boné (caso o sol ficasse muito quente). Não me esqueci de levar uma caixinha contendo linha, anzol, chumbada e um canivete que o Mauro me emprestou.
Chegando à beira do rio eu vi um tablado vazio (caso não saibam, um tablado é uma plataforma onde os pescadores costumam se acomodar para pescar). Eu me instalei lá e fiquei a observar tudo que me rodeava. A paz do lugar me encantava.
Vi araras e tucanos, também um sabiá ficou cantando sobre uma árvore bem próxima ao local que eu estava. Acompanhei aquela sinfonia do começo ao fim antes de me dedicar a colocar a isca no anzol. Parece que a ave viera especialmente para me saudar. Depois que ela se foi eu tratei de começar realmente a minha pescaria.
Peguei alguns peixes e me diverti muito como sempre. Eu simplesmente devolvia ao rio os pequenos para que crescessem mais e guardava no viveiro os maiores. Foram poucos naquele dia, só uns três.
Eu podia notar que formavam umas nuvens bem escuras a noroeste, mas não me importei muito. Fazia muito calor e não me incomodava o fato de me molhar.
Eu vi o céu escurecer. A água do rio se modificar.
Continue sentada no tabladinho, mas os peixes já não vinham comer as iscas.
O rio aumentava de volume e eu continuava ali.
Então a chuva caiu. Forte, poderosa mesmo.
Eu fiquei com o boné na cabeça para me proteger um pouco, mas de quase nada me servia. 
A chuva me lavava a alma. O calor era intenso e a água estava quase morna.
Vi descerem pelo canal do rio plantas das mais variadas.
Eu sabia que aquele rio acolhia as águas de uma vazante. Plantas aquáticas de uma lagoa maravilhosa que fica alguns quilômetros acima desciam dando cambalhotas.
Fiquei a olhar os troncos que desciam aos montes.
A água já quase alcançava a altura do tablado e mesmo assim eu continuei ali.
Já não mantinha a linha de pesca n’água, porque era simplesmente impossível se pegar alguma coisa com um volume tão grande de água e toda aquela agitação.
A água, que tinha uma cor clara quando eu lá me sentei, tornou-se puro barro.
Fiquei sentindo a chuva sobre mim e vendo a transformação do rio.
Era uma torrente.
Fiquei no barranco contente observando as mudanças que ocorrem na natureza.
Uma hora depois o rio continuava volumoso e galhos ainda desciam. Eu já estava com a roupa seca porque o sol havia voltado com força total.
Ajuntei minhas tralhas e peguei o caminho de volta para casa.
Ao chegar lá me perguntaram se eu não havia me assustado.
Sinceramente eu respondi que não. Que tudo faz parte. Que foi um espetáculo e tanto.

sonia delsin 


JOÃO E MARIA


Diante do portão eu paro e olho. Encanta-me uma frase numa placa na varandinha.
“Aqui mora o casal João e Maria”.
Olho os vasos de plantas sobre as muretinhas e fico ali parada um tempo. O tempo de meu pensamento alcançar uma estória.
Entro na sala e vejo que é minúscula. Um sofá de três lugares, um de dois. Uma estantezinha a um canto, uma tv bem antiga sobre ela e os bibelôs!
Há também alguns porta-retratos.
Um casal de noivos. Tão sérios posando para a fotografia.
O mesmo casal rodeado de uma penca de crianças.
Num porta-retrato bem vistoso um menino no dia da sua primeira comunhão.
Em outro uma moça parecida com o pai. Ah! Esta é do dia da formatura! Veste uma beca a bela jovem e sorri timidamente.
Vejo mais crianças bonitas e sorridentes em outras fotografias. Um bebê chupando o dedo...
Entro pelo corredor e encontro um quarto com móveis tão antigos. Uma cama de casal e cobrindo-a, uma colcha desbotada. Um guarda-roupa de três corpos com um espelho oval.
Na penteadeira uma porção de frascos.
As cortinas balançando estão bem rotas.
E há um crucifixo dependurado na cabeceira da cama.
Volto ao corredor e entro noutro quarto. Duas camas de solteiro. Um guarda-roupa pequeno. Parece-me que ali há muito tempo não dorme ninguém.
Nem examino a toalete.
Entro na cozinha que fica no fim do corredor. Ela é toda branca. Imaculadamente branca e eu gosto.
Sobre o fogão umas panelas de ferro. Posso sentir um cheiro de ensopado de carne.
A mesa está posta para duas pessoas. Os pratos são velhos, como são velhos os talheres e os copos.
A geladeira num canto é daquelas bem antigas e sobre ela um pinguim parece me olhar.
A porta dá para uma lavanderia onde muitas gaiolas estão dependuradas. Ouço o canto de canários.
Ao lado da lavanderia um pequeno quintal e uma jabuticabeira.
Olho e vejo um casal sentado num banco tosco sob a velha árvore.
Os dois estão conversando. Estão sentados bem próximos e tão entretidos neles mesmos que nem me notam.
Os olhinhos de Maria são azuis como duas contas. Os cabelos bem branquinhos. Ela descansa as mãos magras sobre o avental bordado.
João tem os olhos pretos, um grande bigode grisalho. Noto que ele é calvo e tem um sorriso doce.
Deixo-os conversando e saio de fininho. Do mesmo modo que entrei.
Eu os vi, posso jurar que sim...
E senti o cheiro do ensopado e ouvi os canários a cantar...

sonia delsin


UM DIA DESTES


Um domingo destes estive na casa de minha mãe. Ela optou por morar só depois da morte de meu pai. É muito afeiçoada à casa, ao lugar, ao seu maravilhoso jardim e nada a tira de lá por mais de uma semana, sem que sofra.
Sempre que podemos estamos visitando-a e quase sempre nos falamos por telefone.
Ela se queixa da solidão, mas diz não saber viver sem suas flores, suas amigas, seus irmãos que moram na mesma cidade.
Estávamos conversando numa tarde de domingo e minha tia chegou acompanhada de suas duas enteadas.
Minha mãe foi buscar uma caixa de retratos antigos e começamos a observá-los.
Há fotos muito antigas. Fotos de meus antepassados.
Umas estão tão amareladas que nem conseguimos bem distinguir rostos, braços e pernas. Outras estão em ótimo estado de conservação.
Fico encantada com as noivas dos retratos. Seus sorrisos tímidos. Me fascina ver os noivos de braços entrelaçados. Os vestidos tão bonitos...
Numa das fotografias está minha tia Rita e meu tio Luiz. Ela tem um ar de menina ainda e ele é um moço lindo. Lindíssimo mesmo.
O sapato em duas cores. Era a moda. O terno branco... um ar de galã. Sempre comentávamos da sua beleza e ele sorria quando dizíamos.
 Eu penso em como passou o tempo. Quantas pessoas guardadas naquela caixa já se foram. Quantas!
Seus sorrisos ficaram, suas caras espantadas. Gosto da espontaneidade na imagem que fica. É assim que podemos guardar as lembranças das pessoas que amamos.
Minha mãe comentou que guarda todas estas velharias e que depois que se for veremos o que faremos disso.
Mãe, a sua caixinha guarda a estória de nossa gente. É o nosso legado. Esta caixa não pode se acabar. Nem sabe como fez bem em ter guardado.

sonia delsin


AH, SE EU PUDESSE!

Se eu pudesse voltar no tempo, voltaria aos meus dias de criança.
Voltaria ao tempo que usava trança e trazia nos olhos tanta esperança.
Se eu pudesse voltar atrás...
Ah, nos balanços me balançaria! Sob as frondosas árvores quantos balanços o papai fazia!
Deus, quanta alegria!
Se eu pudesse nadaria nos riachos de outrora.
E daria de comer aos porcos e às cabras.
Com Neno (meu porco de estimação) novamente brincaria.

Se pudéssemos voltar àquele tempo dourado!
Era um mundo encantado.
Às vezes penso que ele não está perdido. Está guardado, num cofre dourado.
Fecho os olhos e me transporto. Àqueles dias eu volto...

Sinto os cheiros, os gostos.
Ouço vozes.
Deus! Eu posso ouvir o moinho.
Os bambuzais se dobrando, envergando...

Para o passado estou olhando com olhos que não se cansam de admirar.
Tudo consegui guardar. 

sonia delsin


SONHO? REALIDADE?

Muitas vezes quando faço relaxamento alcanço o mundo das cores. Lá me sinto tão leve e flutuo.
Deslizo por tobogãs coloridos.
Quando temos a coragem de abandonar a “realidade”, de ousar voar para outros mundos nós nos deparamos com nossa essência.
E quando estou completamente relaxada penso que este mundo que chamamos “real” é um mundo de sombras.
Firmemente presos à matéria desconhecemos o quanto estas cores e luzes são intensas.
Dizemos que somos humanos.
Não somos humanos. Somos espíritos humanizados. E tomamos esta forma para vivenciar, para executar uma tarefa do espírito.
Nas vezes que viajo na bolha dourada alcanço um jardim e nele abundam flores nunca vistas na terra.
A Terra é apenas e tão somente um planeta, o planeta da expiação. Planeta que está se encaminhando para ser o planeta da regeneração.
Outras vezes viajo na bolha azul e chego a planetas que desconheço, mas que tenho a certeza de conhecer.
Viajando na bolha lilás eu encontro um mundo de paz.
Há religiões que dizem inferno e paraíso.
Eu desconheço tanto e, no entanto, sinto-me ao céu chegando á medida que vou divagando. E este chegar ao céu vem me confirmar que ele existe no meu interior quando vibro amor.

sonia delsin 


CHARME DE MULHER

Ser mulher charmosa não se aprende. Se é e pronto!
Menina, moça, mulher, mulher madura, anciã.
O charme já faz parte da natureza da mulher.
É algo que a envolve inteira. A faz faceira.
A mulher charmosa desliza ao caminhar porque pisa a terra sabendo que tem o mundo aos seus pés. E o universo ao alcance das mãos.
Quando ela fala agrada, porque de sua boca só saem palavras proveitosas.
E sabe ouvir.
O charme da mulher consiste em ser natural, espontânea.
Em deixar a feminilidade derramar-se em cada gesto, cada palavra.
Nenhuma mulher consegue sugestionar algo que realmente não possua dentro de si.
Nenhum artifício a faz charmosa.
Ela pode até aparentar possuir charme, mas quando o homem dela se aproxima descobre frustrado que é tudo fita. Que ela não é o que aparenta ser. E a imagem falsa que ela está tentando passar desmorona-se em segundos. Bastam algumas palavras, uns gestos.
Às vezes bastam alguns minutos para que uma mulher que forçosamente se faça passar por charmosa se revele totalmente o contrário disso.
Já a que possui naturalmente o charme de mulher deixa fluir na convivência ou mesmo ocasionalmente o que está guardado dentro de si.
A mulher charmosa não precisa fazer força para agradar. Ela agrada naturalmente.
Se todas as mulheres entendessem isso muitas delas não fariam o ridículo papel de se passar por uma coisa que realmente não são.

sonia delsin


COMO É BELA A NATUREZA!

Eu fazia minha caminhada matutina quando passei por um terreno baldio onde um casal de João-de-barro andava pelo chão em busca de alimento para seus filhotes.
Os dois estavam tão compenetrados que nem se importaram quando passei bem junto deles.
Fiquei olhando.
Pensando que é bela a natureza.
O homem a agride de tantas formas e ela reage bravamente.
Ela continua exibindo toda sua beleza.
Eu que sempre caminho beirando belos sítios fico admirando tudo que vejo.
O sol nascendo, o gramado verde depois da chuva, as frondosas árvores, os arbustos que vicejam.
Noto tudo e tantas vezes fico encantada com os voos das aves, seus cantos.
Observo borboletas, colibris, olho o céu azul, as nuvens.
Tudo é tão lindo.
Nestes meus passeios matutinos eu cuido de meu corpo físico e do meu espírito, porque capto muita energia positiva quando caminho.

sonia delsin


MINHA PEQUENA CURRUÍRA

Minhas manhãs são mais bonitas desde que ela chegou.
Engraçado que sempre desejei ter uma curruíra cantando em meu jardim e isto aconteceu.
Acho que algum anjo tomou conhecimento de meu desejo e quis me agradar.
Talvez ela esteja gostando do meu jardim florido. Ou gosta da paz deste lugar.
Eu e meu filho temos este privilégio. Um pequeno pássaro com seu enorme canto vêm todas as manhãs nos encantar.

sonia delsin


Como Assim, Sozinha?

ESTOUVADAMENTE SOZINHA

No dia em que você partiu tudo mudou.
O sol de vermelho arroxeou.
O pássaro cantador silenciou.
No dia em que você se foi...
A borboleta amarela também voou.
Pra um jardim e nunca mais voltou.
No dia em que você partiu, eu parti de mim.
Virei este ser assim.
Meio sem destino.
Como um sol a pino.
Pingo chuva.
Brilho estrela.
Lambuzo telas...
Faço belas aquarelas.
Com palavras encanto.
Desencanto.
Sou riso e pranto.
Mas desde o dia em que você partiu.
Minha alma se repartiu.
Virei pedaços.
Crio mosaicos.
Faço versos prosaicos.
E fico filosofando.
Sigo a vida como quem vai andando.
Em busca de um sonho perdido.
Tentando entender o que pode ter acontecido.


Quando escrevi este poema eu não sabia ainda por quais caminhos andaria e o que encontraria pela frente.
Foi um caminho difícil? Penso que os caminhos não são fáceis para ninguém e mais ainda quando se é extremamente sentimental e sensível. E quando não se tem a noção de que a vida é uma oscilação constante. Tenho aprendido muita coisa e sentido muita coisa.
O que posso falar de mim e deste poema?
Posso dizer que minha vida mudou completamente e que a poesia é o instante. É um fiapo que puxamos do infinito. Este fiapo pode se estender e alcançar muitas pessoas ou pode não alcançar ninguém além do poeta. Mas o poema nasceu e existe. É latejante de vida. É uma fibrazinha de um fabuloso novelo.
Quero contar que quando eu o escrevi estava morrendo de medo da solidão. Penso que todos nós a tememos até que aprendemos a lidar com ela. O que tem a ver com egoísmo este texto que inicio? Tem.
Eu fiz uma opção. Eu resolvi ficar sozinha. Não virei nenhuma monja e nem estou enclausurada. Vou explicar. Optei por não ter outro relacionamento tão cedo (ou jamais). Nunca se sabe. De repente pode aparecer alguém muito interessante ou eu posso ser tão interessante para alguém que ele queira me conquistar e acabo aceitando ser conquistada.
Não sabemos o que existe além da curva da estrada porque a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
Tibum.... a gente abre e se surpreende.
Quando optamos por ficar só experimentamos sensações indescritíveis. Primeiro pensamos que não estamos preparados para viver com outra pessoa, depois pensamos que somos as duas metades da laranja e nos completamos. Somos o trio tão almejado... a trindade santa... a pirâmide inteira...
Olhamos no espelho e buscamos além dos limites do nosso olhar. Buscamos quem é de fato esta pessoa que prefere viver sozinha a ter alguém que a abrace, beije e tome seu braço em um domingo à tarde para passear no parque.
No momento não estou desejando esta pessoa ao meu lado.
Quem está de fora pode até pensar: É um egoísta e não quer dividir nada com ninguém, nem mesmo carinhos.
Não é bem assim. Não estou “sozinha” por não ter o que oferecer. Estou sozinha porque preciso deste tempo só meu. Deste tempo em que entro nos meus mais secretos porões. Estou precisando da minha essência, do meu silêncio e dos meus barulhos porque não sou quieta. Converso pelos cotovelos, mas como sou uma controvérsia gosto das minhas horas tão minhas, quando me dedico a escrever, a pintar ou simplesmente ficar admirando meu jardim, olhando os pássaros, as borboletas... as estrelas, os ocasos... o além do que meus olhos físicos enxergam... a visão do terceiro olho se abrindo... as novidades e ao mesmo tempo a sensação de que não há novidade.
Às vezes eu me sento e fico observando a lua. Tão silenciosa como eu a lua desliza pelo firmamento e sinto vontade de abraçá-la. Não que esta contemplação me entristeça. Pelo contrário, fico tão feliz de ter este tempo e poder ficar observando o nosso satélite...
Há dias em que penso que aqueles trinta anos que vivi com um homem viraram nada. Poeira ao vento. Fui eu realmente que vivi aquela realidade? Como pode parecer tão distante de mim um tempo tão importante? Parece que foi um sonho, longo, bom, ruim às vezes.... Um sonho com pedaços, com partezinhas... A junção de todos estes pedacinhos formando um lindo e imenso mosaico.
Então eu olho meus filhos. Eles trazem os nossos traços, nossas características. Um se parece mais comigo, outro com o pai, mas ambos têm de um e de outro na personalidade, nas mãos, nos pés, na pele, nos olhos... Aquela sensacional mistura de genes criou dois seres especiais demais para mim. São como dois firmes galhos da árvore que sou. Se algumas vezes balanço com os ventos eles se balançam comigo, mas apesar de ramificações minhas eles me encorajam a não tombar, a resistir às adversidades, resistir às chuvas...
Sem eles talvez tudo tivesse sido diferente porque houve um tempo em que eu não estava consciente de que era um espírito vivenciando uma experiência humana e desejei a morte. Eu ia dormir e pedia ao Pai Eterno que me transferisse de lugar naquela noite. Que egoísmo era este? Pensava somente em mim? Era dor e hoje reconheço que foi pura dor aquilo. Era um cansaço de mim. Hoje eu reconheço perfeitamente que naquela época andava no caminho oposto do conhecimento. Andava pelo caminho inverso e nem tinha consciência disso. Alguma coisa me fazia andar de costas, andar invertida. Era o caminho do desconhecimento. Foi uma fase tão ruim esta que os pensamentos mais absurdos me passaram pela mente. Eu achava que morrer era solução para tudo. Durou mais tempo do que deveria durar esta fase e foi o suficiente para que meu corpo físico necessitasse drenar este mal. Veio a doença então. Mais grave do que as outras e me assustou.
Vi que deixar para trás este corpo era tão simples e que não era a hora de ir.
Quem me segurava aqui? Meus filhos?
Quem me segurava aqui? Minha mãezinha linda?
De certo modo quem me segurou aqui foi o amor intenso que sinto por eles e fui eu mesma porque precisava recuperar-me física e espiritualmente. Andaria um novo caminho e aquela sensação maravilhosa de liberdade (do vento na cara) me acompanharia pela longa estrada que eu trilharia.
Estou nesta estrada e vejo à minha volta tantas pessoas que amo. Estou rodeada de amigos, de entes queridos. E me parece que a cada dia surgem outros. E a sensação é sempre a mesma: que estamos nos reencontrando.
Os que partiram desta vida terrena não partiram de mim. Eles também me acompanham os passos com seus silêncios e seus olhares que eu não vejo no plano físico, mas adivinho.
Quando foi que eu descobri que precisava viver “sozinha”? Quando foi que eu descobri que sou feliz assim, do jeitinho que estou vivendo?
Precisei experimentar muita coisa para saber que é bom estar como estou. Não recomendo às pessoas que escolham o caminho que escolhi. E nem mesmo sei se continuarei nele o resto da vida. A princípio penso que sim. Outras vezes penso que de repente tudo possa mudar.
Não estou “Estouvadamente Sozinha”. Estou acompanhada de mim e de todos os seres que amo. Estou acompanhada de uma lua que tem um brilho que me fascina. Estou acompanhada de meu jardim, dos sorrisos de meus filhos, do olhar doce de minha mãe, da família toda que amo, dos amigos.... Todos, todos.
Amo estar aqui na Terra mesmo sabendo que ainda é o planeta da expiação. É tão bonito este planeta e penso que o Ser Maior o criou assim para despertar em nós o bom de nós... Ele nos preparou um lindo lugar para morarmos para que acordássemos do longo sono que dormimos... Penso que algumas vezes somos tão teimosos e demoramos tanto a acordar.
Fui sacudida pela vida sim. Fui. E tão apegada era às pessoas que pensava não sobreviver sem elas e viver somente na minha companhia muitas e muitas horas por dia. Sou capaz de ficar muito tempo desacompanhada e não me sentir sozinha. Por isso é que digo que estava precisando deste tempo meu. Eu precisava me encontrar em mim mesma.
E outra coisa aprendi e isto me deslumbrou: nunca estamos completamente sozinhos. É ilusão pensar que podemos estar completamente sozinhos.

E a vida segue assim. Bem assim.

sonia delsin 

VENCENDO DESAFIOS



Vou lhes contar rapidamente aqui a minha estória.
Obviamente que é uma longa estória e não caberia numa crônica ou num conto. Mas vou contar aqui como foi que venci os desafios.
Nasci num lar pobre e feliz. Meus pais eram muito simples e trabalhadores. Lutadores mesmo. E creio que aprendi com seus exemplos a também ser uma guerreira. A não desanimar nunca.
Tive uma infância humilde, mas rica de afeto.
Quando me chegou a adolescência junto com ela chegou-me o sofrer. Estive por alguns anos numa triste condição. Doente numa cama eu quase sucumbi, mas era ali que aprenderia mais como vencer desafios.
Os primeiros passos que dei depois de tantos anos numa cadeira de rodas foram como os de um bebê. Trôpegos, incertos.
Mas decisivos.
Eu nunca mais me deixaria abater, foi a promessa que me fiz.
A vida me reservava tanta coisa ainda.
Quase morri de dor quando meu primeiro filho esteve às portas da morte com um seriíssimo problema renal e depois com sua luta durante muitos e muitos anos com uma visão sub normal.
Só que ainda me reservava mais dor o viver.
Sofri com problemas de saúde consecutivos, mas sempre lutando, sempre superando e não deixando morrer o sorriso na minha face.
Quando não era um problema era outro e eu ia como uma guerreira, trocando as armas e não me entregando.
Vieram dias duros. Foi quando tivemos uma crise conjugal tremenda.
Resultou na separação que foi muito dolorosa. Mas algo pior me aguardava. Um câncer se instalara em meu corpo.
Mais cirurgias e, eu que já havia passado por dez intervenções cirúrgicas, passei por mais quatro.
A cura me chegou e junto com ela uma única certeza. Que eu era uma guerreira incansável e nada me derrubaria.
Hoje, dois anos depois da separação e, um ano e meio depois das cirurgias do CA, vivo sorrindo. Voltei a estudar. Danço, canto, aprendo a representar.
Curto intensamente a vida, meus filhos queridos, meus familiares, meus amigos.
A cada manhã eu penso: não tenho ontem. Ele está morto. Não me pertence mais. O que tenho é o hoje. Um presente dos céus pra mim.
Não questiono como será o amanhã, se ele vai existir ou não pouco me importa.
A certeza que tenho é do dia que me chega e ele vem como um presente, porque aproveito cada instante como se fosse o meu último.
Encontrei a plenitude de meu ser, encontrei também a felicidade e acho tudo tão simples, tão claro.
A vida é uma escola aonde vamos aprendendo. Nosso ser vai evoluindo, evoluindo e, por fim, vamos alcançando a compreensão das coisas.
Talvez eu esteja nesta vida expurgando atos ruins que fiz noutra. Isto num modo de entender que me pertence e pode não lhe pertencer.
É uma resposta consoladora para mim e ela me traz paz. Sinto-me bem, como quem tinha dívidas e as esteve pagando.
Se estou errada ou não em pensar desta forma não sei, mas pelo menos ela me serve como um argumento. Mais que isso. É a minha base de fé.
A guerreira lutará até o fim de seus dias... porque um dia eles findarão, mas no seu tempo certo. Com todos os débitos pagos, com um ser mais fortalecido.
Então sim descansarei em paz, ou continuarei a buscar ainda mais conhecimento. Ainda posso ter muitos mais degraus para subir.
Quem é que sabe?

sonia delsin



O FANTASMA DO PORÃO



Acordei com o coração aos pulos.
Sob o assoalho fica o porão.
As batidas que ouvi foram fortes, repetitivas.
Estive sonhando?
Costumávamos contar histórias de assombração na infância. Eram tantos os causos.
Velho Sebastião!
Tantos anos. Na minha cabeça ainda as histórias que ele contava estão tão bem guardadas.
Há coisas que o tempo não leva, não carrega.
Fica tudo impregnado na gente.
A menina que fui sempre se encantou em ouvir e a mulher que ela se tornou ama contar.
Voltando a contar sobre o assunto que me moveu a escrever esta crônica. Bem, eu fiquei quietinha.
A cama estava tão quentinha e as cobertas eram tão macias.
Meu corpo estava adorando estar ali e minha alma amando estar na casa dos meus tempos de menina. Menina-moça!
Foi no início da juventude que a deixei.
A deixei em termos, porque sempre estive retornando aqui.
Na madrugada o silêncio voltou a reinar e meu coração por fim pôde sossegar.
Já ia adormecer de novo quando outra batida fez meu coração pular.
Estranho! Força da minha imaginação?
Talvez. Tenho essa facilidade de voar.
De mãos cruzadas sob a nunca fiquei a escutar.
De novo o silencio a dominar.
Que bobagem a minha!
Estou sempre a fantasiar.
Por que não me levantar e verificar?
Comprovando que não havia porque me preocupar seria mais fácil me tranqüilizar. Depois sim poderia adormecer em paz.
Descalça, eu deixei o leito e caminhei devagar. Acendi a lâmpada do quarto.
Peguei o corredor. Desci a escadaria escura e fui colocar a mão no interruptor... Antes que meus dedos o tocassem a lâmpada se acendeu.
Voltar correndo para cima? Esquecer tudo?
Ó cabeça fantasiosa!
Continuei parada ali. Nada ao meu redor além do que era tão conhecido meu.
Os armários estavam todos fechados. As janelas e portas, trancadas.
Nada mesmo fora do lugar.
Temos essa mania de aumentar as coisas no meio da madrugada. Criar fantasmas é tão fácil.
Coloquei os dedos no interruptor e apaguei a luz.
Fiquei pensando enquanto subia os degraus se não estive só a imaginar tudo aquilo.
De volta ao quarto esfreguei os pés no tapete e me enfiei embaixo das confortáveis cobertas.
Quando a manhã nasceu eu despertei e fiquei pensando no fantasma do porão que não enxerguei.
Pensei se realmente ele esteve lá ou se sonhei...
sonia delsin



UMA DESILUSÃO


Visitando minha terra natal bateu-me uma vontade grande de rever os lugares onde passei minha infância.
Guardo na memória recantos maravilhosos onde samambaias e avencas formavam cortinados verdes.
Sempre reluto em rever aqueles lugares porque sei que tudo está mudado.
Hoje me armei de coragem e fui.
Tudo está tão abandonado que nem tivemos dificuldade em passar a cerca para adentrar na chácara. Ela está toda quebrada mesmo.
O que posso dizer de um moinho que alimentava a vida e hoje é só um casebre em ruínas...
Alguns anos atrás eu estive lá e escrevi sobre o antigo moinho.
O que encontrei hoje foi ainda mais deprimente que da outra vez. Não resta quase nada daquele tempo, só umas paredes que se mantém de pé. Não há mais a roda, o fio de água que movia a roda.
O riacho que passa próximo ao moinho foi canalizado em alguns trechos e um pouco desviado o seu curso.
Eu me lembro bem que o leito dele não corria da forma que corre agora.
Fiquei parada ouvindo o som da pequena cachoeira. Um cheiro forte e desagradável veio me recordar o tempo em que brincávamos nela.
Era um riacho de águas límpidas, rodeado de amoreiras e bambuais.
De vez em quando um de nós era queimado por uma taturana nas folhas das amoreiras.
A pinguela já não existe e conservo-a intacta em minha memória.
O caminho limpo onde abundavam coqueirinhos ao redor, também não existe mais.
Minha mãe e eu ficamos um tempo paradas naquele lugar do passado, com os olhos buscando o que guardamos dentro de nós mesmas.
Cada qual com suas recordações.
O que nos doeu mais foi o abandono que encontramos naquele lugar.
Obviamente que não vimos tudo, só os fundos da chácara porque não havia como atravessar o riacho já que não existe mais a pinguela, nem uma ponte.
Gostaria de ter visto a casa onde nasci, os ranchos onde brinquei tanto, o velho paiol de milho. A casa eu sei que ainda existe e foi reformada. Os ranchos não me informaram se estão de pé. O paiol me parece que foi demolido.
O que vi lá e amei foi uma castanheira imensa. Foi plantada depois que nos mudamos, nós pudemos ver as jabuticabeiras por toda parte e o arvoredo esconde os recantos onde eu adorava estar.


sonia delsin


“O QUE SE DIZ, O QUE SE CONTA”


Dizem os antigos da cidade que em noite de lua cheia ela saía a cantar.
Toda de branco vestida sempre saía em noite de luar.
Se a alguns chegava a encantar, a outros chegava a assustar.
Os longos cabelos soltos pelas costas escorrendo. A longa saia ia o chão varrendo.
Em certas horas caminhava pelas ruas sem calçamento.
E por vezes ia correndo.
De repente parava, erguia os braços.
Parecia que rogava.
Será que Deus a escutava?
Ou era à lua que ela implorava?
Era uma mulher alucinada. Uma pobre coitada.
Diziam que foi enjeitada.
Tudo que conto escutei de um velho contador de estórias.
Ele arregalava os olhos à medida que me contava e me assustava.
Eu pedia que falasse mais e ele falava, falava.
Hoje em dia eu acho que ele inventava.
Eu perguntava se ela era uma bruxa. Ele me garantia que não. Me falava que era uma mulher movida pela paixão.
Acho que exagerava em tudo, pois dizia que ela era linda com seus cabelos desgrenhados. Que eram uns cabelos muito dourados.
E que o luar tingia de prata. Ficava igual uma fada. Uma mulher encantada.
Dizia que tinha os olhos grandes. Me garantia que eram os maiores que vira na vida.
Me falava até que pareciam dois faróis azuis.
Eu ficava imaginando.
Que beleza poderia haver numa mulher com faróis em vez de olhos e ele falava que era bela como a mais bela sereia. E que cantava em noites de lua cheia.
Falava que as melodias por ela cantadas eram lindas. Tão choradas.
Perguntei certa vez o nome dessa mulher e ele jurou não saber. Mas que talvez alguém soubesse e que quando descobrisse ia me dizer.
Passou o tempo e eu acreditando na mulher que passava as noites cantando.
Um dia o contador de estórias partiu e que ele criava tudo aquilo eu ficava pensando.
Mas em certa noite fui eu a ver.
Ela estava a correr.
Não nas ruas, que já eram todas asfaltadas.
Mas numa estrada dentro de mim. Na verdade naquela hora eu fitava um jardim.
Pensei que estava ficando igual ao contador. Também já podia ver, contar, escrever.
Éramos nós dois, eu e o Sebastião, dois criadores de estórias fantásticas. Desse dia em diante comecei a escrever meus contos. Tinha quinze anos então.
Ai que saudade de ti, meu velho Sebastião!


sonia delsin



MUITO ALÉM DE ONDE A VISTA ALCANÇA



Olhei o horizonte. O sol se levantava.
Erguia-se dourando uma paisagem encantadora.
Minhas manhãs são mais lindas porque assisto o nascer de um novo tempo.
Pensa que todos os dias são iguais?
Pensa que é monótono ver nascer o mesmo sol todos os dias atrás daqueles eucaliptos?
Pois não é.
Hoje o bem-te-vi estava gritando quando os primeiros raios surgiram.
Ontem foi uma borboleta que quase esbarrou em mim.
As folhas estavam cobertas de sereno. A manhã estava mais fria.
Eu pensei enquanto o sol se erguia em civilizações extintas.
Pensei nos homens que passaram por aqui.
Suas bagagens pesadas.
Seus amores, desamores.
Enquanto tantas pessoas dormem, eu caminho e penso.
Componho poemas sob um céu encantador.
Eu penso no ódio dos homens e no amor.
Hoje eu voei quando tudo ficou dourado.
Viajei para meu mundo encantado.
Minhas pernas me levaram pelas ruas e me trouxeram de volta para casa.
Mas, neste meio tempo, minhas asas me carregaram para um lugar onde a vista não alcança.
Um lugar onde volto a ser criança.
Neste tempo que visitei uma menina chorava e eu a consolei.
Eu prometi a ela que nós duas juntas ainda daríamos muitas risadas.
Prometi que caminharíamos até o fim dos tempos pelas calçadas a buscar a borboleta azul que ela tanto almejou alcançar.
Quando eu lhe prometi isto ela parou de chorar e eu me vi a abrir o portão. Um colibri que beijava uma flor de meu jardim quase trombou comigo e então eu me localizei.

sonia delsin

quinta-feira, 29 de maio de 2014



NINHO ESPATIFADO, QUE PENA!



Estou de férias e aproveitando meu tempo para usufruir uma companhia adorável.
Estou com minha mãe passando uns dias na casa de minha irmã na Capital.
Ela adora estar comigo e eu com ela.
Dormimos no mesmo quarto; conversamos muito; caminhamos todas as manhãs e nadamos todos os dias. Geralmente à tardinha descemos para a piscina.
Hoje quando fomos caminhar íamos conversando quando vimos um ninho caído na calçada.
Foi conseqüência da chuva e da ventania de ontem.
No ninho espatifado jaziam dois seres inertes. Dois lindos filhotes já emplumados que estavam prestes a voar.
Que pena!
Senti uma repentina tristeza, porque pensei que aquelas pobres aves não chegaram a voar, a enfeitar o céu com seus voos e nem alegrar as pessoas com seus cantos.
Nesta região vemos muitos sabiás, bem-te-vis, joão-de-barro.
Os filhotes eram grandes e bonitos, suas penas eram pretas e brancas. Eu costumo chamar estes pássaros de carijós, pois desconheço o nome. Eles cantam belamente e na região onde  minha mãe vive no interior costumam aparecer muitos.
Ela comentou no caminho que está muito saudosa de sua casa e eu comentei que também estou com saudade da minha casa, do meu cantinho, do meu jardim, da minha rede, do meu pc, da minha sala envidraçada, do vento sul que chega todas as tardes...
Eu sei que fugi totalmente do assunto aqui nesta crônica.
Mas é que os dois passarinhos me entristeceram um pouco naquela hora e me fizeram pensar muito em meu lar.
Nos meus dois filhotes...Meus tesouros.
Um já se casou e deixou o ninho, mas está sempre me visitando. O outro está se preparando para o voo, mas ainda me encanta a vida com sua adorável companhia.
Tomara que nosso ano seja ótimo, que ele se forme com louvor, que é o que pretendemos.
Os dois filhotes de pássaros não puderam experimentar o voar...
Talvez tenham deixado uma mãe a chorar...
Pássaros devem chorar também, em seus coraçõezinhos de pássaros.
Bem, a vida segue, novos ninhos surgirão. É a lei da vida, da seleção natural...
Não sabemos ao certo, mas tudo tem uma razão de ser.

sonia delsin