Como Assim, Sozinha?
No dia em que você partiu tudo mudou.
O sol de vermelho arroxeou.
O pássaro cantador silenciou.
No dia em que você se foi...
A borboleta amarela também voou.
Pra um jardim e nunca mais voltou.
No dia em que você partiu, eu parti de mim.
Virei este ser assim.
Meio sem destino.
Como um sol a pino.
Pingo chuva.
Brilho estrela.
Lambuzo telas...
Faço belas aquarelas.
Com palavras encanto.
Desencanto.
Sou riso e pranto.
Mas desde o dia em que você partiu.
Minha alma se repartiu.
Virei pedaços.
Crio mosaicos.
Faço versos prosaicos.
E fico filosofando.
Sigo a vida como quem vai andando.
Em busca de um sonho perdido.
Tentando entender o que pode ter acontecido.
Quando escrevi este poema eu
não sabia ainda por quais caminhos andaria e o que encontraria pela frente.
Foi um caminho difícil? Penso
que os caminhos não são fáceis para ninguém e mais ainda quando se é
extremamente sentimental e sensível. E quando não se tem a noção de que a vida
é uma oscilação constante. Tenho aprendido muita coisa e sentido muita coisa.
O que posso falar de mim e
deste poema?
Posso dizer que minha vida
mudou completamente e que a poesia é o instante. É um fiapo que puxamos do
infinito. Este fiapo pode se estender e alcançar muitas pessoas ou pode não
alcançar ninguém além do poeta. Mas o poema nasceu e existe. É latejante de
vida. É uma fibrazinha de um fabuloso novelo.
Quero contar que quando eu o
escrevi estava morrendo de medo da solidão. Penso que todos nós a tememos até
que aprendemos a lidar com ela. O que tem a ver com egoísmo este texto que
inicio? Tem.
Eu fiz uma opção. Eu resolvi
ficar sozinha. Não virei nenhuma monja e nem estou enclausurada. Vou explicar.
Optei por não ter outro relacionamento tão cedo (ou jamais). Nunca se sabe. De
repente pode aparecer alguém muito interessante ou eu posso ser tão
interessante para alguém que ele queira me conquistar e acabo aceitando ser
conquistada.
Não sabemos o que existe além
da curva da estrada porque a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
Tibum.... a gente abre e se
surpreende.
Quando optamos por ficar só
experimentamos sensações indescritíveis. Primeiro pensamos que não estamos
preparados para viver com outra pessoa, depois pensamos que somos as duas
metades da laranja e nos completamos. Somos o trio tão almejado... a trindade
santa... a pirâmide inteira...
Olhamos no espelho e buscamos
além dos limites do nosso olhar. Buscamos quem é de fato esta pessoa que
prefere viver sozinha a ter alguém que a abrace, beije e tome seu braço em um
domingo à tarde para passear no parque.
No momento não estou desejando
esta pessoa ao meu lado.
Quem está de fora pode até
pensar: É um egoísta e não quer dividir nada com ninguém, nem mesmo carinhos.
Não é bem assim. Não estou
“sozinha” por não ter o que oferecer. Estou sozinha porque preciso deste tempo
só meu. Deste tempo em que entro nos meus mais secretos porões. Estou
precisando da minha essência, do meu silêncio e dos meus barulhos porque não
sou quieta. Converso pelos cotovelos, mas como sou uma controvérsia gosto das
minhas horas tão minhas, quando me dedico a escrever, a pintar ou simplesmente
ficar admirando meu jardim, olhando os pássaros, as borboletas... as estrelas,
os ocasos... o além do que meus olhos físicos enxergam... a visão do terceiro
olho se abrindo... as novidades e ao mesmo tempo a sensação de que não há
novidade.
Às vezes eu me sento e fico
observando a lua. Tão silenciosa como eu a lua desliza pelo firmamento e sinto
vontade de abraçá-la. Não que esta contemplação me entristeça. Pelo contrário,
fico tão feliz de ter este tempo e poder ficar observando o nosso satélite...
Há dias em que penso que
aqueles trinta anos que vivi com um homem viraram nada. Poeira ao vento. Fui eu
realmente que vivi aquela realidade? Como pode parecer tão distante de mim um
tempo tão importante? Parece que foi um sonho, longo, bom, ruim às vezes.... Um
sonho com pedaços, com partezinhas... A junção de todos estes pedacinhos
formando um lindo e imenso mosaico.
Então eu olho meus filhos.
Eles trazem os nossos traços, nossas características. Um se parece mais comigo,
outro com o pai, mas ambos têm de um e de outro na personalidade, nas mãos, nos
pés, na pele, nos olhos... Aquela sensacional mistura de genes criou dois seres
especiais demais para mim. São como dois firmes galhos da árvore que sou. Se
algumas vezes balanço com os ventos eles se balançam comigo, mas apesar de
ramificações minhas eles me encorajam a não tombar, a resistir às adversidades,
resistir às chuvas...
Sem eles talvez tudo tivesse
sido diferente porque houve um tempo em que eu não estava consciente de que era
um espírito vivenciando uma experiência humana e desejei a morte. Eu ia dormir
e pedia ao Pai Eterno que me transferisse de lugar naquela noite. Que egoísmo
era este? Pensava somente em mim? Era dor e hoje reconheço que foi pura dor aquilo.
Era um cansaço de mim. Hoje eu reconheço perfeitamente que naquela época andava
no caminho oposto do conhecimento. Andava pelo caminho inverso e nem tinha
consciência disso. Alguma coisa me fazia andar de costas, andar invertida. Era
o caminho do desconhecimento. Foi uma fase tão ruim esta que os pensamentos
mais absurdos me passaram pela mente. Eu achava que morrer era solução para
tudo. Durou mais tempo do que deveria durar esta fase e foi o suficiente para
que meu corpo físico necessitasse drenar este mal. Veio a doença então. Mais
grave do que as outras e me assustou.
Vi que deixar para trás este
corpo era tão simples e que não era a hora de ir.
Quem me segurava aqui? Meus
filhos?
Quem me segurava aqui? Minha
mãezinha linda?
De certo modo quem me segurou
aqui foi o amor intenso que sinto por eles e fui eu mesma porque precisava
recuperar-me física e espiritualmente. Andaria um novo caminho e aquela
sensação maravilhosa de liberdade (do vento na cara) me acompanharia pela longa
estrada que eu trilharia.
Estou nesta estrada e vejo à
minha volta tantas pessoas que amo. Estou rodeada de amigos, de entes queridos.
E me parece que a cada dia surgem outros. E a sensação é sempre a mesma: que
estamos nos reencontrando.
Os que partiram desta vida
terrena não partiram de mim. Eles também me acompanham os passos com seus
silêncios e seus olhares que eu não vejo no plano físico, mas adivinho.
Quando foi que eu descobri que
precisava viver “sozinha”? Quando foi que eu descobri que sou feliz assim, do
jeitinho que estou vivendo?
Precisei experimentar muita
coisa para saber que é bom estar como estou. Não recomendo às pessoas que
escolham o caminho que escolhi. E nem mesmo sei se continuarei nele o resto da
vida. A princípio penso que sim. Outras vezes penso que de repente tudo possa
mudar.
Não estou “Estouvadamente
Sozinha”. Estou acompanhada de mim e de todos os seres que amo. Estou
acompanhada de uma lua que tem um brilho que me fascina. Estou acompanhada de
meu jardim, dos sorrisos de meus filhos, do olhar doce de minha mãe, da família
toda que amo, dos amigos.... Todos, todos.
Amo estar aqui na Terra mesmo
sabendo que ainda é o planeta da expiação. É tão bonito este planeta e penso
que o Ser Maior o criou assim para despertar em nós o bom de nós... Ele nos preparou
um lindo lugar para morarmos para que acordássemos do longo sono que
dormimos... Penso que algumas vezes somos tão teimosos e demoramos tanto a
acordar.
Fui sacudida pela vida sim.
Fui. E tão apegada era às pessoas que pensava não sobreviver sem elas e viver
somente na minha companhia muitas e muitas horas por dia. Sou capaz de ficar
muito tempo desacompanhada e não me sentir sozinha. Por isso é que digo que
estava precisando deste tempo meu. Eu precisava me encontrar em mim mesma.
E outra coisa aprendi e isto
me deslumbrou: nunca estamos completamente sozinhos. É ilusão pensar que
podemos estar completamente sozinhos.
E a vida segue assim. Bem
assim.
sonia delsin

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